terça-feira, 28 de setembro de 2010

Amamentação Prolongada e Desmame

 

Elsa Regina Justo Giugliani*
*Pediatra, professora da Faculdade de Medicina da UFRGS, presidente do Departamento de Aleitamento Materno da SBP, Especialista em Aleitamento Materno pelo IBLCE (International Board of Lactation Consultant Examiners)


O homem é o único mamífero em que o desmame (aqui definido como a cessação do aleitamento materno) não é primariamente determinado por fatores genéticos e instinto, sendo fortemente influenciado por fatores socioculturais. Hoje, ao contrário do que ocorreu por pelo menos dois milhões de anos, ao longo da evolução da espécie humana, a mulher opta (ou não) pela amamentação e, influenciada por múltiplos fatores, decide por quanto tempo vai (ou pode) amamentar. Muitas vezes, as preferências culturais (não amamentação, introdução precoce de outros alimentos na dieta da criança, amamentação de curta duração) entram em conflito com a expectativa da espécie. Algumas conseqüências dessa divergência já puderam ser observadas, como desnutrição e alta mortalidade infantis, sobretudo em áreas menos desenvolvidas. Porém, as conseqüências a longo prazo ainda não são totalmente conhecidas, já que transformações genéticas não ocorrem com a rapidez com que podem ocorrer mudanças de hábitos. Começam a ser mostradas evidências de que o não amamentar segundo as expectativas da espécie pode ter repercussões negativas ao longo da vida dos indivíduos. Assim, a não amamentação ou amamentação sub-ótima pode favorecer o aparecimento de doenças alérgicas, diversas doenças do sistema imunológico, alguns tipos de cânceres, obesidade, diabete e doenças cardiovasculares, além de interferir negativamente no desenvolvimento oro-facial. Provavelmente, com o aparecimento de novas pesquisas nessa área, outros males serão relacionados com os hábitos “modernos” de alimentação infantil, mas alguns aspectos dificilmente podem ser quantificados, especialmente os relacionados com a psique humana.

Atualmente, em especial nas sociedades ocidentais, a amamentação é vista primordialmente como uma forma de alimentar a criança, sob o controle total dos adultos. Assim, perdeu-se a percepção da amamentação como um processo mais amplo, complexo, envolvendo intimamente duas pessoas e com repercussão na saúde física e no desenvolvimento cognitivo e emocional da criança, além de repercussões para a saúde física e psíquica da mãe. Hoje, em muitas culturas “modernas”, a amamentação prolongada (cujo conceito varia de acordo com a “convenção” da época e do local) freqüentemente é vista como um distúrbio inter-relacional entre mãe e bebê. Perdeu-se a noção de que o desmame não é um evento e sim um processo, que faz parte da evolução da mulher como mãe e do desenvolvimento da criança, assim como sentar, andar, correr, falar. Nesta lógica, assim como nenhuma criança começa a andar antes de estar pronta, nenhuma criança deveria ser desmamada antes de atingir a maturidade para tal. Em harmonia com esta linha de pensamento, Dr. William Sears, um antigo pediatra, recomendava “Não limite a duração da amamentação a um período pré-determinado. Siga os sinais do bebê. A vida é uma série de desmames, do útero, do seio, de casa para a escola, da escola para o trabalho. Quando uma criança é forçada a entrar em um estágio antes de estar pronta, corre o risco de afetar o seu desenvolvimento emocional”. Essas palavras sábias podem ter pouco respaldo em sociedades individualistas, que tendem a acelerar o processo de independização do ser humano, substituindo o seio por métodos de auto-consolo como chupetas, paninhos, mantinhas, ursinhos, etc.

Segundo diversas teorias, o período natural de amamentação para a espécie humana seria de 2,5 a sete anos. Atualmente, a Organização Mundial da Saúde recomenda aleitamento materno por dois anos ou mais, sendo exclusivo nos primeiros seis meses. Apesar dessa recomendação, muito poucas mulheres no Brasil amamentam por mais de dois anos. As razões para a não amamentação prolongada variam desde dificuldade em conciliar a amamentação com outras atividades, até crença de que aleitamento materno além do primeiro ano é danoso para a criança sob o ponto de vista psicológico. Uma parcela de mães, apesar de demonstrar desejo em continuar a amamentação, sente-se pressionada a desmamar por profissionais de saúde, seus maridos, parentes, vizinhos e amigos. Pois, para a manutenção do paradigma que sustenta a afirmação de que amamentação prolongada não é natural, foi necessário criar vários mitos tais como o de que uma criança jamais desmama por si própria, que a amamentação prolongada é um sinal de problema sexual ou necessidade materna e não da criança e que a criança que mama fica muito dependente. Algumas mães, de fato, desmamam para promover a independência da criança. No entanto, é importante lembrar que o desmame provavelmente não vai mudar a personalidade da criança. Além disso, o desmame forçado pode gerar insegurança na criança, o que dificulta o processo de independização.

O desmame pode ser agrupado em quatro categorias básicas: abrupto, planejado ou gradual, parcial e natural. Sob a ótica de que o desmame é um processo de desenvolvimento da criança, parece razoável afirmar que o ideal seria que ele ocorresse naturalmente, na medida em que a criança vai adquirindo competências para tal. No desmame natural a criança se auto-desmama, o que pode ocorrer em diferentes idades, em média entre dois e quatro anos e raramente antes de um ano. Costuma ser gradual, mas às vezes pode ser súbito, como por exemplo em uma nova gravidez da mãe (a criança pode estranhar o gosto do leite, que se altera, e o volume, que diminui). A mãe também participa ativamente no processo, sugerindo passos quando a criança estiver pronta para aceitá-los e impondo limites adequados à idade. O Quadro 1 apresenta os sinais indicativos de que criança pode estar pronta para iniciar o desmame:

Quadro 1. Sinais sugestivos de que a criança está madura para o desmame
• Idade maior que um ano
• Menos interesse nas mamadas
• Aceita variedade de outros alimentos
• É segura na sua relação com a mãe
• Aceita outras formas de consolo
• Aceita não ser amamentada em certas ocasiões e locais
• Às vezes dorme sem mamar no peito
• Mostra pouca ansiedade quando encorajada a não amamentar
• Às vezes prefere brincar ou fazer outra atividade com a mãe ao invés de mamar

É importante que a mãe não confunda o auto-desmame natural com a chamada “greve de amamentação” do bebê. Esta ocorre principalmente em crianças menores de um ano, é de início súbito e inesperado, a criança parece insatisfeita e em geral é possível identificar uma causa: doença, dentição, diminuição do volume ou sabor do leite, estresse e excesso de mamadeira ou chupeta. Essa condição usualmente não dura mais que 2-4 dias.

Algumas vantagens do desmame natural encontram-se no Quadro 2:
Quadro 2. Vantagens do desmame natural
• Transição tranqüila, menos estressante para a mãe e a criança
• Preenche as necessidades da criança até elas estarem maduras para o desmame
• Fortalece a relação mãe-filho
• Ajuda a mãe a ser menos ansiosa com relação aos estágios de desenvolvimento de seu filho

O desmame abrupto é desencorajado, pois se a criança não está pronta, ela pode se sentir rejeitada pela mãe, gerando insegurança e muitas vezes rebeldia. Na mãe, o desmame abrupto pode precipitar ingurgitamento mamário, bloqueio de ducto lactífero e mastite, além de tristeza ou depressão, por luto pela perda da amamentação ou por mudanças hormonais.

Muitas vezes a mulher se depara com a situação de querer ou ter que desmamar antes de a criança estar pronta. Nesses casos, o profissional de saúde, em especial o pediatra, deve respeitar o desejo da mãe e ajudá-la nesse processo. O quadro 3 apresenta os fatores que facilitam o encorajamento do bebê para o desmame.

Quadro 3. Encorajando o bebê a desmamar: facilitadores
• Mãe segura de que quer (ou deve) desmamar
• Entendimento da mãe de que o processo pode ser lento e demandar energia, tanto maior quanto menos pronta estiver a criança
• Flexibilidade, pois o curso é imprevisível
• Paciência (dar tempo à criança) e compreensão
• Suporte e atenção adicionais à criança – mãe não deve se afastar neste período
• Ausência de outras mudanças ocorrendo: Ex.: controle dos esficteres
• Sempre que possível, desmame gradual, retirando uma mamada do dia a cada 1-2 semanas.

A técnica utilizada para fazer a criança desmamar varia de acordo com a idade da mesma. Se a criança for maior, o desmame pode ser planejado com ela. Pode-se propor uma data, oferecer uma recompensa e até mesmo uma festa. A mãe pode começar não oferecendo o seio, mas também não recusando. Pode também encurtar as mamadas e adiá-las. Mamadas podem ser suprimidas distraindo a criança com brincadeiras, chamando amiguinhos, entretendo a criança com algo que lhe prenda a atenção. A participação do pai no processo, sempre que possível, é importante. A mãe pode também evitar certas atitudes que estimulam a criança a mamar, por exemplo, não sentar na poltrona em que costuma amamentar.

Algumas vezes, o desmame forçado gera tanta ansiedade na mãe e no bebê, que é preferível adiar um pouco mais o processo, se possível. A mãe pode, também, optar por restringir as mamadas a certos horários e locais.

As mulheres devem estar preparadas para as mudanças físicas e emocionais que o desmame pode desencadear, tais como: mudança de tamanho das mamas, mudança de peso e sentimentos diversos tais como alívio, paz, tristeza, depressão, culpa e arrependimento.

Já se avançou muito na valorização do aleitamento materno nos últimos tempos. A recomendação da duração da amamentação passou de 10 meses na década de 30 para dois anos ou mais nos dias de hoje. Atualmente, fala-se em desmame natural como a forma ideal de desmame, sem especificar uma idade mínima ou máxima para que esse processo ocorra. Apesar desse avanço ainda estamos longe de encararmos o desmame como um marco do desenvolvimento da criança. Para chegarmos a este estágio, faz-se necessário entender e enfrentar as circunstâncias que, segundo Souza e Almeida, “ultrapassam a natureza e desafiam a cultura e a sociedade”.

11 comentários:

Anônimo disse...

Esse texto veio a calhar! meu filho tem 13 meses e ainda e' muito agarrado no peito. eu tinha estipulado que amamentaria ate 1 ano, qdo ele fez 1 ano eu tentei desmamar e foi um processo muito estressante p/ nos dois. acho que nenhum dos dois estava pronto e que rolou uma certa pressao pra que eu parasse. lendo esse artigo, vi que sou a favor do desmame natural, mas ao mesmo tempo bate uma angustia do tipo "sera que alguma dia ele vai querer desmamar??". Nao sei se me sentiria bem amamentando por mais de 2 anos, qdo ele for um garotao!

Maite Tosta disse...

Minha filhota faz um ano mês que vem e nem sinal de querer desmamar... acho que se for respeitado o momento dela, é menos ansiedade, aí ela vai se desinteressar, mas se eu ficar ameaçando "tirar o mamá", aí ela vai ficar nervosa e ansiosa, e aí mesmo que ela não larga...

Anônimo disse...

Minha filha tem três anos e dez meses, meu leite secou, porque ela pouco me procurava, mas não desistia. Agora, voltou a me procurar e tem tido muita febre, há vários dias. Já a levei ao Pediatra e ele não encontrou nenhuma causa da febre. Estou muito preocupada, ela poderá adoecer pela falta do leite?

Maite Tosta disse...

Olá mamãe, nunca li nenhum relato de criança que adoeça por falta de leite, mas sim criança que já estava avançada no processo de desmame, e aí quando fica doentinha volta a procurar o peito, porque é um conforto... vamos combinar, ninguém gosta de ficar doente, e um colinho de mãe e mamá é tudo de bom !

Aline Rocha Taddei Brodbeck disse...

Foste premiada pelo Femina: http://feminaonline.blogspot.com/2010/11/femina-premiado-com-o-selo-sunshine.html

Anônimo disse...

ontem pela 1a vez passei cha de losna no peito e meu filho, ja com 2anos e 3 meses nao quis, dizendo q esta estragado, disse a ele que realmente nao sei o q esta acontecendo com o "tete" dele, mas que de fato deve estar estragado por ele ja estar "mocinho". ele deve mta dificuldade para dormir a tarte e durante a noite por falta do peito.. estou triste por isso, pois estou com do dele, embora nao aguento mais amamenta-lo.
o que fazer, continuo com esse processo de desmame? meu medo e que ele deseje, pois ja ouvi casos que criancas adoecedem por desejar o peito...
preciso de ajuda. grata.

Fernanda Dell Aringa disse...

Precisei desmamar minha filha de uma hora pra outra por causa de um medicamento que estou tomando e que pode fazer mal pra ela. Meu coração está partido por ter que fazer isso, mas será um mal necessário... Ontem fui a uma loja especializada e comprei ABORRECIDA, passei no peito e falei que tava machucado... ela quis ver e não quis nem colocar mais a boquinha, mas como ela estava acostumada a acordar a noite toda pra mamar está sendo muito difícil vê-la perdida querendo mamar e pedindo água e os seus brinquedinhos. Queria amamentá-la até ela largar sozinha, não queria isso pra minha bebê, mas será melhor para ela. E todo mundo fala que ela já mamou o suficiente, pois tem 1 ano e meio... Tô triste e com medo que ela fique doente... Quando ela se dá conta de madrugada chora de soluçar...

Oscar Cariri disse...

Meu filho tém um ano e seis meses e mama muito ainda, gostei muito de ler sobre o desmame natural, e estou nesta tentativa, não quero que ele desmame de forma traumática, eu iria sofrer muito tb, meu marido quer que eu o desmame logo, mais sei que a hora vai chegar.
Everlayne.

Tay disse...

Sou muitoo a favor do desmame natural mas Nao aguento maisssss amamenta-lo a noite.. eu trabalho meio periodo por sorte a tarde. mas ele acordar muitas vezes a noite e faz meu peito de 'bico'... nao quer sair de perto do meu cheiro... estou muito cansada, ja tentei deixa-lo chorando ..mas da muita dózinha nao gostaria que fosse assim.. o que que eu faço ????
tayllaslsqueiroz@hotmail.com
se alguem puder me ajudar me mande um email por favor.

Cris Cordeiro disse...

Olha... meu filho tem 2 anos e 2 meses e nem pensa em sair do peito... tem dias que não suporto amamenta-lo.... principalmente quando estou na TPM, mas morro de dó, porque ele pede "por favor mamãe so um pouquinho" e eu não aguento... quero que o desmame seja natural... mas é muito angustiante essa espera... me ajudem..

juliana dussarrat disse...

Minha filha tem 2 anos emeio e a vida dela e so mama e eu nao aguento mais ela nao quer nem comer comida direito.. E pra dormir so mamando nao sei mais o q fazer, ja botei coisas amargas, coisas verdes e ela simplismente diz: lava mamae bota agua. Ou entao pega um paninho e limpa tudo. Se alguem puder me ajudar meu email e judussarrat90@gmail.com

Postar um comentário

Fala mamãe !